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A ótica dos gestores públicos

Paulo Caetano

Divulgados os nomes das cidades brasileiras que vão sediar a Copa do Mundo de 2014 – Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, Belo Horizonte, Cuiabá, Curitiba, Fortaleza, Manaus, Natal, Porto Alegre, Recife e Salvador – uma certa euforia tomou conta do país, em parte pelo efeito natural que o futebol causa em nossa alma, pela oportunidade que teremos de assistir aos jogos, mas também como se o evento viesse representar a solução de todos os nossos problemas, com capacidade para multiplicar os canteiros de obras, reativando a economia e promovendo modernização e ganhos sociais sem conta. Essa é a ótica dos gestores públicos, que aproveitam o tema e a ocasião para brincar com a expectativa popular, jogando promessas para o futuro.


É indiscutível que obras projetadas para receber a competição deverão trazer bons dividendos. Para a capital paranaense,  fala-se na canalização de investimentos da ordem de R$ 4,5 bilhões para construção da primeira etapa do metrô, revitalização do aeroporto e das vias de integração metropolitana, transferência dos trilhos de trem que cortam o centro da cidade, e evidentemente,  melhorias na Baixada, estádio que vai sediar os jogos no Paraná.
Esse surto de benefícios não pode ser menosprezado, mas também não podemos esquecer que se tratará de efeito temporário, com exceção de avanços urbanísticos, a exemplo do metrô. Lembrando que o metrô de Curitiba já estava previsto. A construção há muito poderia ter sido iniciada. Algumas outras obras deveriam até estar concluídas. Caso da retirada dos trilhos, uma reivindicação antiga da população. Considerações análogas valem para as demais cidades-sede.
Nem o país como um todo, nem essas cidades, que abrigam uma grande parte da nossa população, podem ficar na dependência de um único evento, embora grandioso, como a Copa do Mundo, para encontrar motivação para oferecer respostas aos seus problemas e necessidades.
Um dos maiores desafios do Brasil é descentralizar o processo de expansão urbana, que alcança níveis de complexidade e saturação justamente nessas metrópoles. Não que os jogos devessem, por isso, ser marcados para cidades menores, sem infraestrutura. É apenas uma lembrança. A escolha da Fifa foi acertada. É só para reforçar que a nossa situação não está para comemoração de frutos que nem nasceram e sublinhar algumas das responsabilidades das políticas de desenvolvimento e que estas não podem seguir ao sabor de emoções provocadas por acontecimentos eventuais, nem proteladas, mas traçadas com racionalidade e realismo e executadas com pragmatismo. Os reflexos negativos da crise estão aí pedindo respostas urgentes e claras. Para citar um exemplo: desde o final do ano passado, as cinco principais empresas da indústria automotiva paranaense já demitiram pelo menos 2,8 mil funcionários. É por aí o panorama nacional.

Contador, empresário da contabilidade e presidente do CRCPR; e-mail: pcaetano@pcaetano.com.br

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