Cortar os juros não basta

Paulo Caetano

Não causou nenhuma surpresa a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central de aprofundar os cortes na taxa básica de juros, a Selic. Este último, de 1,5%, que fez o juro cair de 12,75% ao ano para 11,25%, embora considerável para o histórico da Selic, é, no entanto, insuficiente para colocar o Brasil no rol das economias equilibradas e independentes da vassalagem ao capital especulativo. Ainda mantemos uma das taxas mais altas do mundo.

Logo, novos cortes, igualmente significativos, são esperados para reanimar a nossa economia, fortemente abalada pela crise mundial. Mais baixos, os juros vão incentivar as empresas a investir na ampliação dos seus sistemas de produção, aumentar as vendas no comércio, gerar emprego e renda. O risco de sempre – todo mundo sabe – é a volta da inflação. O mecanismo, contudo, da política monetária, é flexível. Os juros tanto podem ser baixados como elevados.

O que não dá para entender é a manutenção de taxas tão elevadas por tanto tempo, jogando-se fora oportunidades de ciclos de crescimento que não voltam mais e elevando a dívida externa a números absurdos. Agrava que a Selic é uma simples referência em nosso sistema financeiro, diante de taxas outras praticadas pelo mercado, a exemplo do cheque especial, que passa de 150% ao ano. Em conseqüência, absurdos também são os níveis de endividamento e de inadimplência da população.

Que o bom senso do Copom nos premie, de uma vez por todas, com uma taxa de juro ao mesmo tempo capaz de incentivar as atividades econômicas e não matar a poupança, fundamental para a economia. Como ensinavam os gregos, a sabedoria está no equilíbrio.

Precisamos voltar a crescer e de forma sustentável e alimentar a especulação nunca foi fórmula recomendável, nesse sentido. A desestruturação do sistema financeiro tem que ser evitada, mas as condições criadas nos últimos 15 anos são de uma generosidade sem par, canalizando lucros espantosos para o setor. Mesmo bancos oficiais, caso do Banco do Brasil, foram induzidos a desviar as suas funções para se concentrar no lucro fácil.

Não se promove competitividade sem estimular os setores produtivos, o que é impossível com juros altos. Padrões aceitáveis de juros têm, enfim, a função de disciplinar o investimento estrangeiro, eliminando o caráter especulativo. Esse capital é bem-vindo, todavia para promover desenvolvimento e não para dar continuidade ao processo histórico iniciado com a transferência das nossas riquezas naturais – pau-brasil, minerais preciosos, cana-de-açúcar – para outras praças.

Cortar os juros, porém não basta. Para voltar a crescer, o País precisa fazer as reformas essenciais, como a tributária. Ninguém merece uma carga de impostos em torno de 36%.

Contador, empresário da contabilidade e presidente do CRCPR; e-mail: pcaetano@pcaetano.com.br