O Efeito Colateral e Letal da Crise Financeira

Eurineide Elias
O mundo vem sofrendo os efeitos da crise financeira que eclodiu nos Estados Unidos e se alastrou pelos países afora, em maior ou menor proporção, com desdobramentos nos diversos seguimentos da sociedade e da economia.
Percebe-se que os governos têm uma preocupação fundamental com o campo econômico/financeiro, e não vai aqui nenhuma crítica a isso, até porque em um mundo globalizado essa interação econômica é natural e necessária entre os países… afina, vivemos numa aldeia global. Há, entretanto, outro aspecto atingido pela crise, por via de conseqüência, tão importante quanto o econômico, o qual precisa atacado urgentemente – o efeito psicológico, que poderá deixar rastros devastadores nas famílias.

Se fizermos uma retrospectiva sobre como essa crise se construiu e tomou corpo nos EUA, constatamos que o sistema financeiro americano financiava imóveis para pessoas, sem avaliar corretamente sua capacidade financeira de arcar com aquele investimento – as chamadas hipotecas Subprime, de maneira que o tempo foi passando e as prestações alcançaram um patamar impossível de serem pagas com o orçamento do contribuinte, de maneira que e a falta de pagamento obrigava o banco a reaver a casa, e o que é pior, sem ter a quem repassar, visto que a situação não era localizada, tornara-se epidêmica.
Isto fez com que, por um lado os bancos se vissem com empréstimos não pagos e com vários imóveis sem condições de repassar; as seguradoras arcando com uma despesa cada vez mais crescente, de forma que tínhamos aí uma situação que ao explodir, como realmente aconteceu, provocou um efeito dominó nos diversos seguimentos da sociedade, com desdobramentos inevitáveis para a economia local e mundial.
Sendo os Estados Unidos considerados o centro da economia global, seus cidadãos também desfrutavam desse privilégio, uma vez que tudo que acontecia por lá era disseminado para todo o mundo, de forma que o americano tinha dificuldade para identificar corretamente onde se situavam os países, principalmente os subdesenvolvidos. O país detinha as melhores universidades, economia “sólida”, cidadãos devidamente assistidos pelo Estado e possuidores de poder aquisitivo avantajado, sem grandes convivências com as necessidades básicas, que fazem o dia-a-dia dos países subdesenvolvidos. Enfim um povo com ego bastante elevado, em que uma de suas maiores preocupações era cuidar da segurança, a fim de evitar ataques terroristas. E, mesmo assim, assistimos atônitos, aos ataques de 11 de setembro de 2001, que feriram de morte esse ego americano, a ponto de seu presidente, o então George W. Bush enviar suas tropas para o Afeganistão, a fim de destruir toda a Al QUAEDA e seu mentor Osama Bin Laden; no caminho também estava o Iraque e seu ditador Sadan Russein, que foi caçado, assim como o foi toda e qualquer pessoa que pudesse estar ligada a esses ataques. E para isso o país  desembolsou somas elevadíssimas de dólares, sem que os resultados fizessem jus a tais investimentos. Taxou alguns países árabes como “EIXO DO MAL”, e criou, assim, uma legião de fundamentalistas com idéias antiamericanas mais acirradas.
Apesar de ter prendido e executado Sadan Russein, percebeu-se que o sangue do ditador iraquiano não foi suficiente para cauteriza a veia da insegurança americana, uma vez que o principal suspeito – Osama Bin Laden – continua á solta, portanto o medo tornou-se uma realidade diária. Mas como entender que o país mais desenvolvido do planeta, detentor dos mais modernos meios de busca e comunicação, tendo um órgão de investigação (FBI) muito bem aparelhado, com profissionais altamente treinados, todo esse aparato não tenha sido suficiente para encontrar esse “terrorista” no território do Afeganistão, quando esse mesmo aparato localizou Sadan Russein escondido num buraco (literalmente)?
Essa pergunta caiu no vazio, tal como vazio ficou o local das Torres Gêmeas e as milhares de famílias que tiveram seus entes vítimas desse ataque brutal.
Da economia americana foi retirado um dos seus maiores centros econômicos, do povo americano foi extraído, de forma dura e violenta, a certeza de que seu país não era imune a essas mazelas tupiniquins mundiais.
Essa gama de sentimentos negativos ainda não tinha sido completamente digerida pelo povo, quando a crise financeira bateu á porta, o dinheiro ficou escasso e as dívidas foram se avolumando; não tardou e o banco exigiu a devolução da casa, mas não era apenas uma casa, era o lar do americano, refúgio da sua família, um dos alicerces da sua cidadania e da sua dignidade como pessoa humana. Mas para o banco era apenas objeto de acordo comercial, mais precisamente uma moeda de troca, destituída de valores imateriais.
A crise se tornou mais forte e veio o desemprego, aí o americano foi ferido de morte, porque viver com os parcos recursos de que dispunha não era normal, ele não fora preparado para uma situação como essa. Isso não era real… mas era a mais pura e cruel realidade. Onde está aquele sentimento de ser o difusor de tecnologias, de fiscalizar as economias periféricas do mundo? Onde está aquele país onde todo o mundo gostaria de viver, e que agora se tornou uma espécie de “lepra” financeira que contamina a todos, e do qual os outros países gostariam de estar fora de seu raio de ação?

Onde foi parar aquele povo cujo poder aquisitivo era tamanho que desfazia-se de seus bens, mesmos os mais caros, porque era mais negócio adquirir um novo do que recuperar o velho?
Neste momento ficou fácil entender que dentro de uma aldeia globalizada, como em tudo na vida, existem bônus e ônus, e, às vezes, não necessariamente nessa ordem.
A mente americana ficou conturbada, era uma realidade muito difícil de aceitar e de conviver; os homens, pais de família, não se sentem mais como exemplo a ser seguido as esposas se desdobram para contornar uma situação incontornável, os filhos perderam as referências familiares, e na mente dessas pessoas existe um turbilhão de sentimentos desencontrados; sem casa, sem emprego, sem dinheiro e, o que é mais difícil, com a dignidade duramente combalida. E em momentos assim, para algumas pessoas, Deus se apresenta como, possivelmente, um dos responsáveis pela situação caótica, e até a fé fica abalada.
As grandes empresas buscam, a duras penas, continuarem com as portas abertas, portanto com dificuldades de garantir os atuais postos de trabalho; os estrangeiros passaram a ser vistos como intrusos que poderão tomar a vaga de um americano. Atividades até então classificadas como sub trabalho, como sapateiro, mecânica, restauração de roupas, em geral desenvolvidas por estrangeiros, começaram a despontar e a crescer, de forma que o consumidor redirecionou mais sua atenção para o conserto do que para o consumo. Os índices econômicos caem vertiginosamente, fazendo com que o governo injeta mais e mais recursos no mercado para salvar a economia e os empregos. Afinal sem demanda não há sentido produzir.
Todo esse cenário já é suficiente para abalar qualquer mente humana em qualquer parte do mundo, pois essa situação repercute em todo o planeta, entretanto nossa atenção se volta mais para os Estados Unidos, por tudo o que ele representa para os demais países do globo.
A todo esse panorama associemos um local onde as pessoas podem adquirir armas de fogo livremente e, onde essa aquisição é até incentivada nas famílias, de maneira que até menores têm acesso a esses instrumentos. Temos aí a fórmula ideal para os massacres desumanos que colocam em risco a vida de pessoas inocentes, nos mais diferentes locais, senão vejamos alguns acontecimentos ocorridos a partir de 2007, em território americano, que tiveram repercussão mundial:

Ano: 2007
13/02 -    O bósnio Sulejmen Tolovic, de 18 anos, matou a tiros 5 pessoas, no Centro Comercial Trolley Square, em Salt Lake City (Utah, EUA), após o que foi abatido pela polícia;
16/04 -    O estudante sul-coreano Che Sung-hui matou 32 estudantes e professores da Universidade Politécnica da Virgínia (EUA), e depois se suicidou. Este foi o fato mais grave destas características registrado em Centro Educacional nos Estados Unidos.
07/10 -    6 pessoas morreram num tiroteio em uma festa, perpetrado por Tyler Peterson, um adjunto do “xerife” do Condado de Oconto, em Wisconsin (EUA);
05/12 -    9 pessoas morreram, incluindo o agressor, e 5 ficaram feridas, quando um homem de 20 anos abriu fogo indiscriminadamente em um Centro Comercial de Omaha (Nebraska);
Ano: 2008
07/02 -    6 pessoas morreram quando um homem entrou em uma reunião na Prefeitura de Kirlwood, no estado de Missouri, e foi abatido;
14/02 -    Um estudante vestido de preto matou a tiros 6 pessoas e feriu outras 15, na Universidade do Norte de Ilinois, e depois se suicidou;
02/09 -    Um doente mental matou 6 pessoas, entre elas um policial, na localidade de Alger, no estado de Washington;
Ano: 2009
05/03 -    Um homem com uma pistola semi-automática matou 5 pessoas, 3 delas crianças, na cidade de Cleveland (Ohio);
10/03 -    Um homem chamado Michael Mcbendon, de 27 anos, matou 10 pessoas, entre elas, sua mãe, seus avós e seus tios, posteriormente se suicidou. Isso aconteceu nas cidades de Kintson (Alabama);
16/03 -    Um imigrante cubano matou 4 pessoas, incluindo a mulher e depois se suicidou, em Miami, Flórid;.
29/03 -    Pelo menos 8 pessoas morreram em um ataque a tiros a uma clínica para idosos e doentes de Alzheimer, em Carthage (Califórnia do Norte, EUA). O agressor foi ferido pela polícia;
04/04 -    Um homem assassinou 13 pessoas, entre elas o brasileiro Almir Olímpio Alves, e se matou em seguida, no Centro de imigrantes, em Bringhanton, Nova York;
20/04 -    Um norte-americano matou a tiros a ex-mulher e os 3 filhos, suicidando-se em seguida. O crime ocorreu na noite de sábado, na casa da mulher, de 33 anos, no estado de Maryland. Antes de disparar sobre si próprio, o homicida deixou escrita 5 cartas, nas quais pedia desculpa à família e afirmava que tinha problemas  psicológicos.
. Fonte: WWW.google.com.br
É claro que existe aí também toda uma discussão em torno da política de acesso a arma de fogo praticada pelos Estados Unidos e, que, a cada novo massacre essa discussão vem à tona, sem que nenhuma medida efetiva tenha sido tomada, esse ponto não é o objetivo desse trabalho. Nosso foco reside no fato de se associar a isso mais esse ingrediente psicológico que pode funcionar como um elemento impulsionador do gatilho dessa arma que atira sem uma direção específica, e onde todos e cada um podem ser um agente ou uma vítima.
Acredito que deve haver uma preocupação com o mercado, com a economia, com os ativos, porém nada disso tem sentido sem a presença do homem como consumidor, como agente ativo que faz toda essa alavanca econômica girar e produzir. È preciso restaurar na cabeça das pessoas a fé em Deus, acreditar na força da união da família, na sua própria capacidade de recuperação, o patriotismo positivo, a união fraterna dentro da família, das comunidades, das cidades para que isso se multiplique em cadeia para todo o povo, na reconstrução de um país onde as pessoas sejam mais importantes do que as estatísticas econômico-fianaceiras. O poder está em cada um.

Eurineide Elias – economista e estudante de Direito



Muito interessante a abordagem da crise financeira no psicológico do povo americano, embora seja uma consequência que assola o mundo inteiro, porém, nesse contexto colocado pelo artigo, representa um aspecto que realmente preocupa, e deveria ser melhor analisado pelos poderes constituídos dos Estados Unidos. Parabéns pelo artigo.

Alzenir de Paula

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Gostei muito da abordagem que a autora demonstrou na racionalização de seus argumentos. Trata-se de uma tese sociológica importante, oriunda de um aspecto da crise financeira que não está sendo considerada nas estatísticas.

Nunca tinha visto a crise financeira por esse ângulo. Achei muito interessante o conteúdo do artigo.

ELENITO ELIAS DA COSTA

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Somente uma mente brilhante pode enfocar a gravidade desse fato sob esse angulo, nunca dantes avaliado. Isso comprova a capacidade eloquente inserida nas palavras da autora.

A autora Eurineide Elias, mesmo com formação em economia, demonstrou uma sensibilidade sociológica interessante na anaálise da crise financeira mundial. Realmente é um a specto que, ao que parece, não está sendo considerada pelo governo norteamericano, no entanto merece providências urgentes. Muito bom artigo.

Ana Suely Lopes

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O artigo nos remete a um especto ainda não abordado da crise financeira. Realmente a preocupação é apenas com a recuperação da economia e se esquecem de que as pessoas é que fazem a economia existir. Muito bom.

É claro que existe todo uma política de armas nos Estados Unidos, incentivada pelo loby das indústrias, no entanto, uma arma não constiui intrumento de ataque se não houver um agente motivador. A política armamentista põe a arma na mão da pessoa e o desespero aciona o gatilho. Ainda dá tempo de rever as políticas sociais e reverter essa tendência. Gostei bastante do tema do artigo. Muito inovador.

Euridênio Sousa

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Gostei do artigo como um todo, mas me chamou a atenção o final, quando a autora acrescenta a todo esse cenário o problema da fé que se abala ao sabor das adversidades. Concordo plenamente que é preciso restaurar a dignidade das pessoas em paralelo com a recuperação da economia.

Vanessa Rodrigues Silva

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Fiquei muito interessada no teor do artigo, em função dos fatos novos que levanta e que podem repercutir de forma cotundente na sociedade tanto americana quanto nos outros países.
Merece uma reflexão mais intensa.

Taí um aspecto da crise pouco explorado, principalmente quando a autora busca os massacres ocorridos no período para ilustrar sua tese. Impressionante como uma pessoa com formação em economia deixa transparecer uma sensibilidade sociológica tão forte.
Parabéns.