Paulo Caetano
A série de cortes na taxa básica de juros, atualmente em 10,25% ao ano – a menor desde a criação do Comitê de PolÃtica Monetária (Copom) -, devendo em breve registrar um dÃgito, foi comemorada, por razões óbvias: ainda não surtiu efeito, mas a expectativa é que venha baratear o custo do capital, estimulando ao mesmo tempo o comércio e as atividades produtivas em geral.
A tendência, porém, traz atrelada uma conseqüência previsÃvel: a debandada do universo dos investimentos, principalmente dos fundos, para regiões mais promissoras. É assim que funciona o mercado. Só em março último, por exemplo, os fundos de renda fixa perderam mais de R$ 500 milhões lÃquidos, segundo a Associação Nacional dos Bancos de Investimento (Anbid). Ao decidir tributar a caderneta de poupança com saldo superior a R$ 50 mil e baixar o imposto das aplicações em fundos, o governo pretende evitar que os grandes investidores migrem para a poupança, com juros mais atraentes e com a vantagem de não cobrar imposto. A migração poderia desestruturar o mercado financeiro e de modo grave a canalização de recursos para diversos setores de infra-estrutura, com exceção da habitação, financiada pela poupança.
Embora polêmicas, as regras anunciadas tentam contornar as coisas, sem afetar o pequeno poupador. Segundo a Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip), 90% dos poupadores brasileiros têm até cinco mil reais em conta. As cadernetas mais polpudas representam apenas 1%. O volume em depósito não é pequeno: passa de 274 bilhões de reais.
Que as regras do jogo estão sendo alteradas não restam dúvidas – alguma coisa precisa ser feita para enfrentar a crise internacional que afeta severamente o Brasil – mas pelo menos não se cogitou em confisco da poupança ou coisas do gênero. Grave seria surpresa dessa natureza, como aconteceu no governo Fernando Collor de Mello. A população ainda hoje sofre com o trauma.
Poupar é importante para o paÃs e, para tanto, é necessário haver estÃmulo, segurança, confiabilidade nas regras; contudo, como defendemos em artigos anteriores, ainda achamos que a base da riqueza nacional deve sair fundamentalmente do trabalho. É a produção que mais precisa ser incentivada para gerar desenvolvimento, emprego, saltos qualitativos no padrão de vida das famÃlias. Torçamos para que iniciativa como o Microempreendedor Individual –MEI, que entrará em vigor em julho, emplaque. Serão milhões de brasileiros com a perspectiva de gerar renda para si e para as comunidades. O PIB nacional este ano vai confirmar que o grande desafio do paÃs, nessa conjuntura, é a retomada do crescimento.
Nosso sistema financeiro está apenas caindo na real. O Brasil ingressa no patamar de juros praticados pelos paÃses civilizados, onde, nem por isso, a cultura da poupança é desprezada. É bom que a taxa Selic continue caindo. Quem vivia de lucros fáceis, a começar pelos bancos, vai ter que se acostumar à nova realidade.
Contador, empresário da contabilidade e presidente do CRCPR; e-mail: pcaetano@pcaetano.com.br

Não há comentários
Comentários alimentos para este artigo
Trackback link
http://www.blogcontabil.com.br/wp-trackback.php?p=925